sexta-feira, 17 de junho de 2011

Patativa do Assaré: Poeta e Crítico Social


As relações entre Patativa do Assaré e a política passam pela compreensão da síntese que ele fez entre o trabalho manual e o intelectual, superando a velha dicotomia que tanto inquietou filósofos e cientistas sociais. Interessante como ele se refere ao campo como o local privilegiado para seu fazer poético. Recolhido ao seu roçado, longe da conversa que nos momentos de trabalho ele evitava Patativa se concentrava na preparação do solo para o cultivo e na transformação em versos das imagens que se formavam em sua mente e que eram a matéria prima de uma poética marcadamente social. 
Patativa precisa e deve ser considerado como um intelectual, afastadas as polêmicas e qualquer conotação depreciativa que a expressão possa ter guardado. Um intelectual no sentido do que formula seus poemas e de sua interferência no mundo, com a força de seu talento e a legitimação de sua sabedoria.
Posição que implica assumir uma dignidade e uma altivez de quem se recusou a ser mais um dos integrantes dos currais coronelísticos e a trabalhar, pacientemente, na perspectiva de um questionamento por parte de seus leitores, do senso comum e de verdades que pareciam cristalizadas.
Essa dignidade e altivez podem ser traduzidas como a consciência de seu papel social, o que passamos a chamar de cidadania, palavra que se tem desgastado por ser usada à saciedade, das campanhas publicitárias à retórica governamental. Isso o diferencia de muitos poetas populares, comprometidos com o mercado editorial, forçados a escrever versos de encomenda, muitas vezes como forma de sobrevivência, outras como pura subserviência.
         Patativa guardou uma distância regulamentar dessa engrenagem. É onde ele reitera que não fez "comércio" de sua arte. O livro veio para reforçar sua importância pela possibilidade do registro do que estaria condenado ao esquecimento, por conta da transmissão oral. Vale a pena ressaltar que até os setenta anos ele fez da comunhão com a terra sua principal atividade e seu ganha-pão.

O canto de Patativa é elucidativo de suas posições. É clássico, em suas raízes românticas, é apolíneo na limpidez de sua formulação e envolvente na medida em que a criação ecoa o mítico, em que o homem aflora no poético, em que o político não abre mão do estatuto estético.

Um canto que prossegue refletindo nossas contradições e anseios, tangenciando o exercício do poder, mas político enquanto essencial à coesão do grupo e exercício de invenção e cidadania. 
HERANÇA

Meu pai foi um poeta. Pois eu herdei esse dom do meu pai. Eu encontrei um livro e, mais embaixo, com a caligrafia do meu pai, esta quadra: "Se este livro for perdido/ e depois for encontrado/ para ser bem conhecido/ leva o seu dono assinado: Pedro Gonçalves da Silva".

JUSTIÇA

O que eu sempre lia com mais prazer eram as pregações de Cristo. Eram os direitos humanos. Eu de nascimento mesmo eu comecei logo a ver a verdade e a justiça. Por isso então eu sou um poeta social, um poeta do povo, defendendo o povo. 

CONSELHEIRO

Olhe, eu pesquisei e li a vida de Antônio Conselheiro, no tempo em que ele era perseguido, tido até como um monstro e tal e tal. Antônio Conselheiro foi um dos maiores líderes do Nordeste, até o maior, viu? 

LAMPIÃO

Eu nunca escrevi nada sobre Lampião. Mas...se Lampião não tivesse sido injustiçado, Lampião teria sido outro homem. Segundo a história que eu já pesquisei, ele foi assim um guerrilheiro. É revoltado contra a injustiça

PRESTES

Você sabe que foi Luiz Carlos Prestes que revolucionou, não é? Que andou aqui pelo Brasil, pelo Nordeste mesmo, e, naquele tempo, naquela luta danada. Mas que eu não tenho nada com Prestes, apenas eu tenho um poema que o desfecho era Luiz Carlos Prestes. Agora, mudei o desfecho desse poema por causa da perseguição. Era o tempo da ditadura, ninguém podia publicar certas coisas. 

CALDEIRÃO

O beato Zé Lourenço estava sendo um defensor dos desprotegidos, dos oprimidos. Vinha gente de longe. Aquela perseguição foi por causa disso. Os latifundiários estavam ficando sem braço, sem trabalhadores, viu? Que ali no Caldeirão (experiência de fazenda comunitária, no sul cearense, desmantelada em 1936) já estavam fabricando ferramenta agrícola ali dentro mesmo, viu? Era quase o Conselheiro... 
 LIBERDADE

Liberdade para mim é o mesmo direito humano. Liberdade que eu quero dizer não é possuir isso e aquilo não. É ser dono do seu direito. É isso que eu chamo de liberdade, viu?  É ninguém contrariar o direito do outro, o direito do próximo. É justamente a liberdade que eu vejo é essa.

Material Integral: 
Entrevista e edição: Gilmar de Carvalho, doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-São Paulo e professor do Curso de Comunicação Social da UFC.
Publicado em A Verdade nº 31

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