sábado, 29 de outubro de 2011

Psicanálise Infantil - Análise do conto "Pele de Asno"

Leia o Conto Pele de Asno.



O conto “Pele de Asno” conota a relação incestuosa e a idéia de abuso sexual entre pai e filha. O contexto da história é passado na idade média em uma sociedade monarca e patriarcal, que é acentuada pelo fato do protagonista incestuoso ser o Rei.
A história começa com a felicidade plena do Rei, da Rainha e de sua filha, entretanto a alegria é interrompida pela morte da Rainha, esta faz um pedido ao Rei antes de morrer: de jurar casar-se apenas quando encontrar outra mulher que tenha melhores atributos que a mesma. O objetivo implícito do pedido é de não ser substituída ou superada, tendo convicção que seus dotes são únicos.
Com o passar do tempo a tristeza é amenizada, e devido à pressão dos conselheiros da corte, o Rei decidi casar-se novamente. Apesar de que várias princesas que lhe fora apresentada, o monarca continua viúvo e não se sente atraído por nenhuma delas, até que consegue enxergar na filha os atributos da mãe em uma versão aprimorada e rejuvenescida, ou seja, o tema psicológico denominado por Freud como o complexo de Édipo, é introduzido e mais tarde concretizado e fundamento durante o enredo.
A menina consegue discernir que o desejo do pai é algo inconexo, recebendo a ajuda da fada dos lilases que a aconselha pedir ao Rei vestidos impossíveis de serem realizados e a pele de um asno mágico que é a fonte de toda riqueza do reino, visando retardar a vontade incestuosa do pai. Os vestidos que servem para inibição se contrapõem na construção da beleza e da sensualidade, sendo os mesmos utilizados como armas, aludindo o olhar do pai e guardados para a conquista do príncipe. A princesa sente satisfação e deleite em possuir os mais magníficos vestidos, analogamente podemos ligar os pedidos dela com os desvarios do pai, coisas promiscuas e impossíveis, entretanto desejadas.
A construção paterna é feita a partir da visão da filha, que está em transição da fase infantil para uma pré-adolescência, que foge do pai que a deseja, saindo de casa disfarçada com a pele do asno e suja de fuligem. A saída do castelo e dos arredores da corte remete a passagem da infância, onde o mundo era visto inocentemente para uma fase adulta, onde os conceitos estão sendo formandos e se têm a consciência de suas faculdades físicas e psíquicas.
A Pele do asno mágico que oculta à princesa denota algo a ser escondido encobre os atributos e sua nobreza, ao passo que metaforiza a negação da figura paterna e a perda de sua condição nobre em substituição a vida humilde e sem luxo. A pele do asno leva a outra conclusão, ligada a idéia de morte e de valia, a morte da infância e a idéia valor, já que o bicho é dado em sacrifício e tem valor inestimável. 
O principal conflito psicológico é a auto-identificação na infância, o complexo de Édipo feminino é concretizado quando a menina se espelha na mãe e abdica desse vinculo materno, desejando inconscientemente o pai, competindo por esse amor. Segundo Freud, todas as crianças passam por essa fase na infância e precisam do sexo oposto (representado pela figura paterna), onde se constrói sua personalidade e feminilidade, o conflito da história é que a mãe é vencida nessa competição amorosa e o pai retribui sexualmente esse amor.
No conto a filha do Rei vence esse conflito quando sai da posição de princesa, saindo Castelo, tornando-se independente e fazendo suas próprias escolhas. A independência da princesa chama atenção por ser em uma época aristocrática e altamente machista, além disso, sua posição nobre a tornaria ainda mais submissa, entretanto o que acontece é o amadurecimento e a construção de suas próprias idéias e escolhas. Por fim a jovem apaixona-se novamente, sendo o príncipe a nova figura masculina e equivalente a figura paterna, o Rei também supera o desejo incestuoso e casa-se novamente obtendo o perdão da filha.


Referências Bibliográficas:

BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. 16º. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2002.
Mario Corso; Diana Lichtenstein CorsoFadas no divã: Psicanalise das histórias infantis. 16º ed. Artmed, 2006.
PERRAULT, Charles. Pele de Burro. Traduzido do original francês publicado pela primeira vez em Grisélidis, Nouvelle avec le conte de Peau d’Ane et celuy de Souhaits ridicules (Paris, 1694)


Ao usar este artigo, mantenha os links e faça referência ao autor:
HIROTSU, Priscila. Artigo: Psicanálise Infantil - Análise do conto "Pele de Asno". João Pessoa, PB. Publicado 29/10/2011, em: http://www.gerandoletras.blogspot.com\

6 comentários:

  1. Ainda não li esse conto, mas pela análise, tem cara de ser beeem dark =X

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  2. A tão ressaltada pedofilia pelos meios de comunicação, na maioria das vezes tem sua origem no próprio lar. No meu blog: http://ossegredosdaeducacao.blogspot.com/
    eu procuro mostrar como funciona a coisa.

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  3. É meio tenso querer ler algo assim mas mostra uma realidade podre da vida.
    Curti.

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  4. Estudei o Complexo de Édipo e concordo muito com ele, conheço pessoas que não passaram por esse período da forma mais natural e hoje tem alguns problemas relacionados à sexualidade. Com texto, bem explicativo, meus parabéns! E é bom lembrar: Freud é um mestre!

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  5. Indico a todos a lerem o CONTO INFANTIL, indicado antes da análise...
    Os contos infantis são importantíssimos pois mostram através da fantasia um lobo mal que pode está dentro da sua própria casa ou uma madrasta que pode ser sua mãe!

    A criança pode fazer a representação da sua realidade através da ficção!

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